ASPECTOS LEGAIS QUE O SÍNDICO PRECISA DOMINAR PARA EVITAR PROCESSOS E DENÚNCIAS
Ser síndico(a) vai muito além de administrar contas, contratar prestadores ou conduzir assembleias. A função carrega uma responsabilidade legal significativa. Na prática, muitos processos e denúncias que recaem sobre síndicos não nascem de má-fé, mas de desconhecimento, omissão ou decisões tomadas sem respaldo jurídico.
Ao longo da minha trajetória acompanhando a gestão condominial, presenciei histórias reais que servem como alerta — e também como aprendizado — para quem exerce ou deseja exercer essa função com excelência.
1. CONHECER A CONVENÇÃO E O REGIMENTO INTERNO NÃO É OPCIONAL
Uma das situações mais comuns envolve síndicos que tomam decisões baseadas em “como sempre foi feito”. Em um condomínio residencial, por exemplo, o síndico autorizou o fechamento de varandas por entender que isso valorizaria os imóveis. O problema? A convenção proibia qualquer alteração de fachada. O resultado foi uma denúncia formal, ação judicial e a obrigação de desfazer as obras.
Aprendizado: A convenção condominial e o regimento interno são a “lei interna” do condomínio. Ignorá-los não isenta o síndico de responsabilidade.
Dica prática: Leia esses documentos integralmente no início da gestão e mantenha-os sempre à mão. Em caso de dúvida, consulte um advogado especializado antes de autorizar qualquer mudança.
2. ASSEMBLEIAS: O CUIDADO COMEÇA NA CONVOCAÇÃO
Outra história recorrente envolve assembleias mal convocadas. Em um caso real, decisões importantes sobre obras foram anuladas judicialmente porque o edital não descrevia claramente os assuntos que seriam deliberados. Moradores que se sentiram prejudicados recorreram à Justiça — e venceram.
Aprendizado: Assembleias são o coração da vida condominial, mas também um dos maiores focos de risco jurídico. Uma Ata malfeita pode trazer grandes riscos e prejudicar a gestão do síndico.
Dica prática:
• Descreva os temas de forma clara e específica no edital;
• Respeite prazos e formas de convocação previstos na convenção;
• Registre tudo em ata de forma clara, detalhada e fiel ao que foi decidido.
3. CONTRATOS E PRESTADORES: ATENÇÃO REDOBRADA
Já vi Condomínio responder solidariamente em ação trabalhista e pagar por todas as verbas para funcionário de empresa terceirizada que nunca havia pisado no bloco porque contratou sem verificar obrigações legais da empresa. Em outro caso, a falta de cláusulas claras gerou prejuízo financeiro ao condomínio após a rescisão contratual.
Aprendizado: O síndico é o representante legal do condomínio. Contratos mal feitos recaem sobre ele.
Dica prática:
• Formalize todos os contratos;
• Exija certidões, comprovação de encargos trabalhistas e previdenciários;
• Conte com assessoria jurídica ou administrativa especializada.
4. PRESTAÇÃO DE CONTAS: TRANSPARÊNCIA EVITA DENÚNCIAS
Nada gera mais desconfiança do que uma gestão sem clareza financeira. Em um condomínio, o síndico não apresentava relatórios detalhados e atrasava a prestação de contas. Desta forma ¼ dos moradores convocaram Assembleia conforme previsto em lei e na Convenção do Condomínio, formalizaram sua destituição e eleição de novos membros. Mesmo sem desvio comprovado, foi denunciado e precisou se defender judicialmente.
Aprendizado: A ausência de transparência é terreno fértil para denúncias, mesmo quando não há irregularidade.
Dica prática:
• Apresente balancetes mensais;
• Facilite o acesso às informações;
• Comunicação assertiva não gera desconfiança;
• Registre e dê publicidade das decisões em assembleia.
5. LIMITES DA AUTORIDADE DO SÍNDICO
Muitos síndicos acreditam que “mandam” no condomínio. Essa visão é perigosa. Em um caso real, um síndico aplicou multas sem respeitar o direito de defesa do condômino. O Condômino alegou perseguição, falta de oportunidade de apresentação de defesa e arbitrariedade do síndico. A multa foi anulada e o condomínio condenado a pagar danos morais e materiais uma vez que o condômino havia já pago as multas.
Aprendizado: Autoridade sem legalidade vira abuso e pode trazer prejuízos financeiros para o Condomínio.
Dica prática:
• Respeite o contraditório e a ampla defesa;
• Siga exatamente o que a convenção prevê;
• Nunca personalize conflitos.
6. O CÓDIGO CIVIL É LEITURA OBRIGATÓRIA
Para administrar um condomínio com excelência, é necessário que o síndico tenha conhecimentos básicos, deve ter uma assessoria contábil e jurídica. Além disso, deve buscar aprimorar seus conhecimentos através de cursos, palestras, imersões, etc.
Os artigos 1.347 a 1.358 do Código Civil tratam diretamente do condomínio e das atribuições do síndico. Ignorar esses dispositivos é caminhar no escuro. Sabemos que o síndico possui responsabilidades civis e criminais. Precisam estar sempre atualizados das suas obrigações.
Dica prática: Estude esses artigos e, sempre que possível, participe de cursos de formação e atualização.
Conclusão: Consciência, Propósito e Responsabilidade
Ser síndico é exercer liderança, mas também assumir riscos. A boa notícia é que a maioria dos problemas legais pode ser evitada com conhecimento, prudência e postura ética.
Cada decisão deve ser tomada com a consciência de que o síndico não administra apenas patrimônio, mas relações humanas, sonhos, investimentos e confiança.
Quando o síndico atua com propósito, respeito à lei e compromisso com a coletividade, ele não apenas evita processos e denúncias — ele constrói uma gestão que deixa legado, inspira confiança e fortalece a vida em condomínio.
Porque, no fim, gerir bem é também cuidar de pessoas.
Fernanda Champoski Albuquerque